Meu primeiro (e último) dia como folião
Pela primeira vez em minha vida, resolvi ir às ruas, acompanhado de minha noiva e de alguns amigos nossos, para tentar brincar o carnaval carioca pela Zona Sul do Rio. Cheguei à Ipanema por volta de três de tarde. A sensação de ser folião de primeira viagem em meio ao caos carnavalesco carioca, razão pela qual turistas de todo o mundo se surpreendem conosco – seja no bom ou no mau sentido – não foi particulamente boa. Para minha sorte, meus amigos concordam comigo, então, não corri o risco de passar por chato na situação.
O cheiro de urina estava muito forte, sinal de que muitas pessoas ainda não aprenderam a usar o troninho. Fora, é claro, o cheiro considerável que os foliões bêbados (que são muitos!) espalham ao banharem civis inocentes com suas beveragens de quinta. Mas a maioria não o faz por mal. Não que se lembre.
Não acreditem na história de que carnaval é só folia, é só alegria. É mentira. Eu e meu grupo fomos atropelados violentamente inúmeras vezes por pura falta de educação. Pelo menos umas vinte vezes (estou chutando por baixo, juro). Levo em consideração que a quantidade de pessoas era muito grande, que era necessário impor-se de vez em quando para conseguir avançar alguns metros. Mas sem ferir os direitos humanos.
Conhece aqueles rapazes de menos de 18 anos, ratos de academia, que adoram malhar os braços e o “tanquinho”, mas esquecem de cuidar das pernas e do bumbum? Eles são os responsáveis por grande parte das dores de cabeça nos carnavais. Geralmente sem camisa e utilizando um dialeto “surfistês”, gostam de se exibir (às vezes se esfregar) para qualquer moça próxima, esteja ela ou não acompanhada. Para minha sorte, um desses elementos abordou minha morena e uma amiga minha à moda “gangsta” (com o peito bem estufado, como um avestruz, e as asas bem abertas). Retribuí o favor. Graças ao meu autocontrole às meninas terem me segurado, não parti para a ignorância. Afinal, carnaval é época de folia! Certo?
Mais ou menos errado. Muita gente sequer conseguia se colocar enquanto indivíduo em meio à sacanagem. Percebam – e isso também vale para o Réveillon – que muita gente tenta se inserir no contexto, mas não consegue. Ficam aqueles olhares perdidos, horrorizados em busca de um pequeno espaço dentro daquele bloco de rua, daquele barzinho que nunca se esvazia. Porque não existe nenhuma possibilidade de você chegar perto dos trios elétricos ou entrar nos barezinhos se não tiver chegado muito cedo.
Dentro de casa, posso usar meu banheiro à vontade, chamar meus amigos, pedir comida, ligar os controles de jogo de meu computador e garantir meu divertimento com responsabilidade e segurança. Esse é o meu carnaval. Boa sorte aos que se põem às mãos dela.

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