
Bauhaus, uma das mais populares bandas de Pós-Punk
A seguinte matéria foi extraída do Jornal Laboratório Meier, de circulação para os alunos das Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA). O trabalho ficou bem legal.
Melancolia em Estado Puro
Bandas Pós-Punk projetavam imagem sombria, mas cheia de atitude intelectual
Rafael Gonzalez (rafael.leme@globo.com)
Talvez não exista um período na história do Rock tão execrado pela crítica como os anos 80. Há quem diga que durante os anos oitenta fora decretada a morte do Rock. Mas um olhar mais atento evidencia que nessa época muita coisa boa era feita. Por um lado, a New Wave investia em um som bem jovem, animado e dançante. Por outro, surgia um som dark, vinculado a uma ideologia que, em termos gerais, cultuava a tristeza e a melancolia. Esse som seria chamado posteriormente de Pós-Punk.
Por que Pós-Punk? Após o auge do movimento Punk, que tinha como característica uma atitude rebelde, surgiram bandas também de atitude, mas com um caráter mais intelectual. Mesmo assim, notam-se heranças Punk no Pós-Punk, como por exemplo as músicas curtas e diretas. Nas letras, o mesmo niilismo de revolta, de descrença no futuro, agora, acrescido da tristeza, depressão e ressentimento.
Fato é que a partir da segunda metade dos anos 70 essa tribo dark começou a surgir. Seu berço? A Inglaterra de Joy Division, The Cure e The Smiths.
No entanto, no Brasil, até meados dos anos 80 não se ouvia falar em nada disso. A onda era mesmo a New Wave que, mais comercial e com influências da cultura pop, fervilhava na mídia. O que hoje chamamos Pós-Punk era tão undergroud, tão obscuro, que o mundo, com exceção de pequenos clubes da Inglaterra, ainda não havia tomado conhecimento de sua existência nem sequer alternativamente. O alternativo da época era a própria New Wave.
O panorama mudou apenas em 1984 quando, num dado momento, aquilo se projetou para fora da Inglaterra. Começaram então a brotar nos meios de comunicação aqueles músicos de cabelo espicaçado, vestidos de preto. O aparecimento da banda, então desconhecida, Bauhaus no filme Fome de Viver de 1982, estrelado por David Bowie, ajudou no processo.
As primeiras bandas a despontar foram o The Cure, The Mission, Bauhaus e o Siouxsie and the Banshees com o single Cities In Dust, de 1985. O The Cure conseguiu sucesso com o álbum The Top (1984), fazendo todos acreditarem ser este o primeiro álbum da banda. Apenas posteriormente, hits como Boys Don’t Cry foram desenterrados.
O The Cure é, sem dúvida, uma das bandas que, com a liderança de Robert Smith, também integrante de Siouxsie and the Banshees, mostrou ter muita qualidade. Na sua primeira fase, a melhor para muitos, gravou álbuns como Seventeen Seconds e o pesado Pornography, cuja primeira faixa, One Hundred years já começa com o verso it doesn’t matter if we all die (Não importa se todos morrermos). O sucesso comercial chegou com o álbum The Head on the Door das faixas In Between Days e Close To Me. Mas só em 1986 que o The Cure se tornou de fato um fenômeno de popularidade com o lançamento da compilação Staring at the Sea – The Singles, que trouxe a faixa Boys Don’t Cry, um verdadeiro hino dos anos 80. Nesta altura, Robert Smith já havia adotado o visual através do qual tornou-se ícone Pós-Punk: lábios borrados de batom, olhos pintados e cabelo totalmente despenteado. Depois disso, a banda ainda gravou em 1989 Disintegration, álbum sucesso de crítica, no qual Robert Smith fala, através das letras, sobre a desintegração das coisas, desde relacionamentos até a própria vida.
Outra banda de muito reconhecimento é o Joy Division, que só passou a fazer sucesso bem depois de seu término em 1980. É isso mesmo. Com o suicídio do vocalista Ian Curtis, o resto da banda formou o New Order, que em 1983 estourou com o hit Blue Monday. Só nesse momento que se olhou para o passado do New Order e se deu de cara com o som daquela banda de Manchester, com melodias densas e depressivas, cujo líder, que sofria com crises de epilepsia e mantinha um affair extra-conjugal, enforcou-se aos 23 anos de idade. O filme Control (2007), dirigido por Anton Corbijn conta a história de Ian Curtis.
O grande hit do Joy Division é a música Love Will Tear Us Apart. Uma curiosidade interessante que evidencia o caráter “barra-pesada” da banda é a origem de seu nome. Na tradução, Joy Division significa “divisão do prazer”, nome da área onde as mulheres judias eram mantidas prisioneiras e “oferecidas” sexualmente aos oficiais nazistas no romance House of Dolls, de Karol Cetinsky.
Outros garotos que, mesmo não adotando um visual dark, figuraram com muita força no contexto do Pós-Punk foram os integrantes do The Smiths. Liderados pelo vocalista e compositor de personalidade forte e voz inconfundível Steven Patrick Morrisey, os Smiths estouraram em 1984 com seu primeiro álbum, que levou o nome da banda, e alcançou a segunda posição no ranking do Reino Unido. A faixa de grande sucesso foi This Charming Man. Johnny Marr já começava a demonstrar seu grande talento nos riffs de guitarra.
O segundo álbum alcançou o primeiro lugar nas paradas com o hit How Soon Is Now. O Meat Is Murder é, além de um álbum de Rock, um manifesto vegetariano. Morrisey critica Deus e o mundo nas letras das músicas. A última faixa, que leva o nome do álbum, é realmente bem pesada e triste, evidenciando as brutalidades da relação desigual e cruel entre homens e animais.
Em julho de 1986, os Smiths lançaram o disco que muitos consideram sua obra-prima: The Queen is Dead. Destaque para as faixas Bigmouth Strikes Again e There Is A Light That Never Goes Out, canção totalmente depressiva como manda o figurino. No refrão ouvem-se os versos to die by your site es such a lovely way to die (morrer ao seu lado seria uma bela maneira de morrer).
Mas ainad existem letras mais depressivas que essa, como as das músicas I Know It’s Over (Sei que está terminado) e Asleep (Desacordado), que narra um suicídio.
Os Smiths ainda fizeram sucesso com os singles Ask e Panic e com o álbum Strangeways, Here We Come de 1987.
Um olhar mais cuidadoso às letras de Morrisey mostra que o rapaz, realmente, tinha o dom da palavra. Sua carreira solo segue de pé até hoje.
Além dessas bandas ícones do Pós-Punk, pode-se citar o Cocteau Twins, Echo and the Bunnymen, Sisters of Mercy, The Mission e The Cult.
Talvez quem tenha chegado mais perto de definir o Pós-Punk enquanto gênero do Rock, mesmo que tenha sido por acaso, foi Bernard Albrecht, guitarrista do Joy Division. Ele fazia um comentário a respeito do filme Nosferatu, clássico do cinema, quando acabou praticamente definindo o caráter da música dark. “A atmosfera é realmente maléfica, mas você se sente à vontade dentro dela”.